Eu, eu, eu e os outros

segunda-feira, abril 24, 2017

@andrejosselin
Eu sou, embora reste de mim só metade, uma saudade inteira. Eu sou a dor do partir que não chegou a ir e, por ser incompleta, causa mais estragos. Eu pensei ser, por toda a vida, um poema mal escrito. Soube, então, que nem poema eu chego a ser. Eu sou, no máximo, uma tristeza inacabada. Com esforço, quem sabe eu chego a ser, talvez, um dia, qualquer coisa.

Recuso-me a pôr fé em mim, mas insisto em crer que há ainda um futuro. E, por desinteresse em adentrar em mim, expandi-me. Cínica, tento me compreender em outras mentes, outros pensamentos, outras hipocrisias, outras faltas de vontade. Até que, sem querer, apesar do esforço contínuo, vejo razão de procurar.

Em ti eu me encontro - ou perco-me ainda mais, enquanto me descubro. Amo-te em outros corpos: vestidos nos tons mais diversos ou nus no sentido mais superficial da palavra. Meu silêncio é um grito de paixão que não te alcança, morre no meio do caminho. E, preguiçoso demais para se reerguer, desiste de se reinventar.

Amo e, repentinamente, deixo de amar. Por descuido, desleixo ou completa incompetência. Custa-me permanecer intacta; é penoso ser ainda fiel a quem fui ou ao que senti há pouco. Irresponsável que sou, troco-te por todos e quaisquer fios de cabelo largados em minha cama. E finjo. Finjo, finjo e finjo… E finjo tanto que até esqueço e me questiono: finjo ainda? Ou me tornei?

Eu renego o meio, eternamente em busca do fim. A pressa me assola, me assassina, me isola. Incapaz de seguir o ritmo alheio, eu saio à frente. Venço. É costume ser primeiro lugar. Vencer às vezes é solidão. Ser é, também, solidão. Ninguém me alcança, ninguém corre tanto, ninguém quer saber de nada senão de si.

Eu sou, então, a dúvida constante, o desespero de não saber, a alegria de achar que sabe. Eu sou de uma ignorância nata, de um egoísmo abstrato, absurdo e real. Eu, eu, eu e eu. Obsessão por mim. Por sentir e, mais que isso, entender os sentimentos que me atravessam como barquinhos de papel no meio do Oceano Atlântico.

Afundo em mim sem sequer perceber. Morro afogada na areia da praia. Se me jogassem uma boia salva vidas, eu olharia para o outro lado e fingiria não ver. E só não paro de debater meus braços porque isso pararia o escândalo, seria discreto demais. Eu orgulhosamente morreria pela minha teimosia. 

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